Mostrar mensagens com a etiqueta Epistularium. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Epistularium. Mostrar todas as mensagens

8.10.08

Epistolário XXXI

[Goya - Quien lo puede pensar]


André ao seu P. A.

Há aquele momento que me assalta todos os dias. Quando podia ter-te dito. E pegado na tua mão. Nos ossos da tua mão que já não era mão. Eram ossos. Como os de agora. Enterrados. E ficar assim quieto. A tua mão morta quase morta enterrada na minha. E dizer-te. Dizer-te com muita força. Tu sabes. Aquela noite. Quando deixámos de ouvir a música e as pessoas à volta. E tu disseste-me. E eu não. E eu não fui capaz. Eu não sou capaz. Ouve. Não sou capaz. Eu não sou capaz. E todas as noites quando me deito e tu me visitas o sono. Todas as noites. Vejo-te todas as noites. Com cabelo. E o cigarro maroto e os olhos pequeninos. E os rebentos de barba rufia. E depois o murro nas tripas daquele momento. Quando podia ter-te dito que. E apertado com força a tua mão quase morta na minha. E em vez disso fiquei de mãos esmagadas, as unhas cravadas nas palmas, e as tripas puxadas rasgadas com força força tanta força, a ver-te morrer. E cada dia se torna mais difícil.

Até já. Vou-me deitar.

24.4.08

Epistolário XXX

[Brueghel o Jovem - Provérbios (pormenor)]
...
Eu por mim, continuei
Espojado, adormecido,
A existir sem viver.
...
Mário de Sá-Carneiro

André ao seu P. A.

Não deixaste de me habitar a memória. Não me fugiram para outras paragens as primeiras imagens do sono. Ainda és tu que me abres a porta. E me puxas a mão anda anda. Sem que mo digas. Os teus olhos entornados no chão de indiferença.

Quando eu olhava e havia uma luz que. Os dias correm e eu estou mais perto de ti. Havia aquele último peso vergando as estantes. Velho de anos medrosos. O papel e as letras a que me agarrava já têm destino. Agora tomar as forças. E fazer a viagem.

ٳلى اللقاء صديقي

29.8.07

Epistolário XXIX

[Caravaggio - São João Baptista]

... E as janelas abertas, sempre... sempre fechadas...

Encalhei dentro de mim.
Nem me concebo já.

Mário de Sá-Carneiro, Eu-Próprio o Outro

Ρ.Α. ao seu André

Estou com pressa. Deixa-te de sonhos. E de delírios. E de loucuras. Recolhe-te em ti mesmo. Anda. Fecha a porta. Fecha os olhos. Vai-te embora. Esquece. Pára. Para quê. Ainda não percebeste que. O que fazes aí ainda. Já é tempo. Ou ainda achas que. Anda. Custa menos do que parece. Eu sei. Tu sabes. E depois nada. Ataraxia ἀταραξία. Ou preferes isto. Os dias rebolando vazios para a frente e para trás. E essa solidão atroz que te esmaga o peito. Não. Chega. Pára. E deixa-te de sonhos. Anda. Estou com pressa.

25.8.07

Epistolário XXVIII

[Andrea del Sarto - Retrato de jovem]

Don’t say

we have come now to the end.

White shores are calling.

You and I will meet again.

And you’ll be here in my arms,

just sleeping.

(cantado por Annie Lennox)


Ρ.Α. ao seu André

Não se volta a sítio de onde nunca se saiu. Tu o dizes. Não sei se saiste. Se não. Se quando desapareceste da minha vida eu fiquei na tua mente. Se aquelas memórias que aqui desfias alguma vez te abandonaram. Ou não. Não sei. Se calhar não. Se calhar quando pensava em ti e queria que estivesses ao meu lado. Se calhar também tu me tinhas na mente. Se calhar apenas não podias lutar contra ti mesmo. Contra os teus medos. Não sei. Mas eu senti a tua falta. Não sei se isto é não sair. Talvez seja. Quem sou eu para. Quem és tu.

Não sou eu. Não é o meu fantasma. És tu. Though they keep giving you the it's not you it's me routine. Não funcionas. Não és. Chega. Aprendeste a tua lição. Porque saíste tu da tua clausura de tantos anos? Porque deixaste o sossego da tua solidão? Inebriado com rejuvenescimento surpreendente e espectacular. Eu sei. Mas tu lembras-te de como eras e às vezes pareces ter voltado a ser. De que te valeu então. De que te vale agora. Pára. Desiste.

Não há vazio maior do que aquele onde estou. Tu não sabes o que é o vazio. Tu estás aí. Respiras. Corres. Choras. Até quando. E às vezes eu penso se. Porque tu não vais conseguir. Já experimentaste tudo. Não dá. Deixa de ser tolo. Desiste.

Também eu gostava de te ter perto de mim. Embora isso seja impossível. Porque eu só existo na tua memória. Tu sabes. Ou não. E se. Só há uma maneira de o saberes. Tu sabes.

21.8.07

Epistolário XXVII

[Memling - Vir dolorum]
I am stretched on your grave
And I'll lie here forever
If your hands were in mine
I'd be sure they would not sever
My apple tree, my brightness
It's time we were together
For I smell of the earth
And am worn by the weather


(anónimo irlandês do século XVII traduzido por Philip King)

André ao seu Ρ.Α.

Volto sempre a ti. Ou talvez não. Porque eu nunca te deixo. E se nunca te deixo. Então não volto. Porque para voltar. E eu não te deixo. Nunca. Nem nos momentos de maior felicidade. Quando seria fácil arrumar-te num canto esquecido. Mas não. A tua memória não me abandona. E tu sabes que não é fácil. Para os outros. Porque o que para mim é memória. Doce. Sempre presente. Para eles é fantasma incómodo. Quando começo as minhas frases por o Ρ. um dia. Ou o Ρ. uma vez. Ou o Ρ. dizia. Tantas. Demasiadas vezes. E eu não sei se.

Perguntas porque escrevo cartas falsas em nome de um morto que nunca em vida me escreveu uma linha sequer. Eu escrevo memórias. Tu és uma. Das mais queridas. E nos momentos mais negros aninho-me nos braços que amei. Onde está o calor que não encontro cá fora. E à medida que se vai estreitando o meu mundo. E caindo uma a uma as âncoras que me sustêm. A saudade. E a tristeza. E o vazio. Porque é isso que me mata. Olhar em volta e não ver. Então volto sempre a ti. Mesmo não sendo um retorno. Porque na verdade nunca te deixei. A ti vejo-te sempre. Em todo o lado.

E se eu acreditasse que. Seria tão mais fácil. Porque teria aquela esperança. Eu sei. Vã. De um dia voltar a ver-te. Dar-te o beijo que nunca demos. Mas eu não acredito. E nunca mais nos veremos. Nem aqui. Nem em lado nenhum. Não te terei de novo nos braços. E o beijo que nunca demos. Queria poder dizer-te até breve.

Fazes-me tanta falta.

P.S.
Anteontem passei por ti. Era de noite. Estava com ele. Por quem me chora o coração.
Não pararam os meus pés. Parei eu. Deixei de ouvir de sentir de viver. Um momento. Deitei-te os olhos e disse-te olá. Não sei se me viste.

15.8.07

Epistolário XXVI

[Dürer - São Jerónimo]

André ao seu Ρ.Α.

Tivesse eu. Eu fiquei calado. Não abri a minha boca. Porque dela não me saem palavras. Subiram-me à boca. Uma duas três tantas vezes. E eu apertei os lábios. Contive-as e olhei para o lado. Contigo era assim. E agora também. Tenho tanto medo. De quê. De nada.

Trinta e tantos. Já é tempo. Já chega.

Até já.

Epistolário XXV

[Fra Angelico - Vista de uma cela]

Ρ.Α. ao seu André.

De que te valeu. Tivesses tu ficado calado. Porque isto. Este medo esta vergonha que te tolda a mente. Ainda não percebeste. Não nasceste para isto. Tu. Só tu. Trinta e tantos anos. Já chega.

Olho para trás e. É tarde.

Acorda.

2.8.07

Epistolário XXIV

[Hopper - Summer interior]

nothing's right, if you ain't here

I'll give all that I have, just to keep you near

I wrote you a letter, I tried to make it clear,

you just don't believe that I'm sincere

I've been thinking about you, baby.

(cantado por Massive Attack)


Ρ.Α. ao seu André

Um dia queria perceber porque escreves cartas falsas. Há quem beba. Há quem se mate. Há quem. Mas tu. Tu escreves cartas falsas. Em nome de um morto que nunca em vida te escreveu uma linha que fosse. Porque nada havia a escrever. Eram dias cheios. Tu olhavas para mim e eu olhava para ti e ria. Tu não rias. Apertavas os lábios tristes e deixavas-me os teus olhos para eu decidir o que fazer com eles. E eu. Não podia. Porque tu não sabes o que é isto. Querer e não poder. Agarrar-te olhar. Dizer-te eu também. Tu não sabes. Para ti foi tão fácil. Mas tu és tu e eu sou eu não sou tu. E para mim houve outras coisas tão fáceis que para ti seriam tão difíceis. Por isso não me julgues. Porque tu sabes. Que eu. Mas eu não fui capaz. E tu deixavas-me os teus olhos de aço. Mesmo sabendo que eu não sabia o que fazer com eles. Por isso mos deixavas. Porque também para ti era mais fácil assim. Acorda amigo. Larga-me. Eu estou morto.

15.7.07

Epistolário XXV

[Leonardo da Vinci - Máquina voadora]

... mesmo que na carta se falasse do futuro o que estava em jogo era um processo de memória:
lembra-te que já estiveste cá fora; ou talvez melhor: não te esqueças. Era este o sentido de qualquer carta: não te esqueças!
Gonçalo M. Tavares, Jerusalém

Ρ.Α. ao seu André

Eu sei. Fiz-te sofrer. Sem saber. Porque se eu soubesse. Foi preciso morrer. E reviver na tua memória. Porque eu. Eu não sabia. Quer dizer. Eu sabia que tu. Mas não sabia que. Tu sabes. Via os teus olhos que me diziam. E as tuas mãos. Parando a meio caminho. As vezes em que se te abriam os lábios e tu ias dizer. Ou. Mas tu não. Tu tinhas medo. Quase tanto como eu. Mas eu pensava que. Não sei. Um delírio teu. Porque tu tinhas sofrido tanto. E eu pensava que. Tu sabes. E por isso nunca dei muita importância. Nunca percebi. Nunca soube. Porque tu te fechas nesse teu sorriso não sorrido. E um dia acordei morto. Na tua memória. E soube.

Eu sei. Salvei-te. Quando tudo te era negro. E os dias te eram insuportáveis e as noites te envenenavam o sono. Dei-te a vida. E mais do que a vida. Dei-te. E não percebi. Um motivo para acordares. Todos os dias. Enchi-te a alma. Mas eu não sabia. Só agora que vivo na tua memória. E me lembro. E te lembras. De ti. De mim. Todos os dias. Quando te sentas a escrever. Eu estou aqui a olhar para ti. You are my angel. E tu não sabias. Que te tinha salvado. E um dia acordaste. E eu tinha morrido.

Vou dormir. Na tua memória.

12.7.07

Epistolário XXIV

[Pieter Brueghel o Jovem - Provérbios (pormenor)]

Oh those girls are ten a plenty,
you’ve got so much more, you’ve got... you’ve got... you’ve got a wonderful personality!
(
Corpse Bride, de Tim Burton)

Ρ.Α. ao seu André

Não paras de delirar. Ainda que te avise. Ainda que saibas. Ainda que. Mas quê. Não vale a pena. Deixa-te ir. Porque se é assim. Porque se é isto que queres. Se preferes viver o sonho. E depois acordar. Sozinho. Subir. Voar. E depois cair. Sozinho. Pois sonha. Pois voa. Pois cai. Levantar-te-ás. E eu estarei aqui. Para te acolher nos meus braços de nada. Como se não te acolhesse. Mesmo se daqui não saio. Eu não posso sair daqui. Eu não estou. Nem sou.

Tenho-me lembrado daquela noite. Quando me. Tão tolo. E tu nem bebias muito. Mas eu já sei. Quando te falta a coragem. És tão tonto. Porque nem assim tens conseguido. E quando íamos beber shots. E escondíamos os copos. Lembras-te. Tu não aguentavas mais de um ou dois. Eu também não. Que meninos. Mas naquela noite não havia shots.

As mariconças não bebem shots. Os lolós. Lembras-te. Quer dizer. Aquelas mariconças não bebem shots. Aquelas que vão para aqueles sítios. Porque depois há os como tu. Que não se sentem obrigados a comportarem-se como meninas. E que fazem as coisas que os outros homens fazem (menos comer gajas: não se pode pedir tudo). Que não têm qualquer problema em assumirem a sua sexualidade. Que se sentem melhor em ambientes não sexuais. Que não se comportam como mulheres histéricas. Que até gostam de ir à bola. E eu sei que vocês são a maioria. E que depois há aquela minoria histérica. E há também aqueles que não conseguem. Tu sabes. Porque tu também foste um desses. Lembras-te. Quando andavas com miúdas. Ah mas eu sei que tu gostavas. Que não era para disfarçar. Lembras-te da C. Eu não. Porque eu não estava lá. Mas eu sei. Porque estou em ti. Na tua memória. Eu sou a tua memória. É só o que eu sou.

Talvez tenha sido porto. Não sei. Não interessa. Tu gostavas de porto. Passaste meio tonto. Tu és tonto. Sempre. Mas estavas mais. Mesmo tonto. Eu, não sei. Estava talvez encostado à parede a beber cerveja. Porque é que elas me olham com aquela cara quando peço uma cerveja. As mariconças. Tu passaste. A sorrir. Coisa estranha. Porque tu não sorris. Olhaste para mim durante não sei segundos minutos. Parou o tempo. Para ti. Vi-te chegar ao pé de mim. Abraçaste-me e eu abracei-te. E depois deste-me um beijo. No pescoço. Ou na cara. Não me lembro. Não interessa. Foi um beijo. E eu achei que tu finalmente. Que o porto te tinha. Mas não. Melhor assim. Para ti. Não sei. Às vezes penso se.

Se tu te pudesses ver. O susto nos teus olhos. Amigo. Se alguém devia estar assustado era eu. Não tu. Agarraste-te a mim e disseste desculpa desculpa desculpa. Desculpa o quê. Deste-me um beijo. De amigo. Não foi um beijo de. Apesar de.

Por isso pára. Não sonhes. Não delires. Porque tu não és capaz. Ou és. Não sei. Se calhar és. Mas e se.

Ρ.Α.

8.7.07

Epistolário XXIII

[Ryckaert - Homem dormindo]

En un ensayo del
Espectador (septiembre 1712), recogido en este volumen, Joseph Addison ha observado que el alma humana, cuando sueña, desembarazada del cuerpo, es a la vez el teatro, los actores y el auditorio. Podemos agregar que es también el autor de la fábula que está viendo. Hay lugares análogos de Petronio y de don Luis de Góngora.
Jorge Luis Borges, Libro de sueños

Ρ.Α. ao seu André

André deixa-te de sonhos. Porque se ele está nos teus sonhos. E está. Eu sei. Ainda esta noite esbarrámos um no outro. Num sonho dormido. Teu. Pedi-lhe desculpa pelo valente encontrão e segui em frente até desaparecer. Eu. Não ele. Sempre a olhar para trás. A tentar perceber. Porque não é fácil ver-te tão. E eu tinha de perceber. Os teus olhos de aço perdidos numa felicidade tão. Amigo. Tu não sabes se estás nos sonhos dele. Muito provavelmente não estás. Deixa-te de sonhos. Porque pior do que não sonhar. Pior é não ser sonhado.

Tu não sorris. Levantas os cantos da boca e ris com os olhos. Porque eu conheço esse teu sorriso. Vi-o tantas vezes. Aquela noite no. Lembras-te. Claro que te lembras. Já escreveste sobre ela tantas vezes. Sempre de maneira diferente. Mas as mesmas palavras. Porque tu não as podes esquecer. E por isso aqui estou. Vivo na tua memória. Quando te disse. Tu sabes. Não me faças repeti-lo diante desta gente toda. Não fiquem com ideias. Não foi nada de. O que eu disse ao André foi que gostava muito dele. Que ele me fazia tão. Que. Não conto mais. Não foi nada de. Mas são coisas de amigos muito amigos. E depois vi-lhe os olhos derreterem. Aço líquido. E ele não disse nada. Olhou-me com aquele sorriso que não é sorriso. Pareceu-me que tinha palavras presas na garganta. Que me ia dizer que. Não sei. Ias? Mas ficou em silêncio. Depois baixou os olhos. Tu baixas os olhos quando. Engoliu as palavras. Fechou os olhos durante um respirar. Quando os abriu eram aço duro. Outra vez. Pediu um porto. E depois sorriu. Mas não era o teu sorriso sorrido. Eras a cara de uma tristeza indizível. De quem tem medo de. Tiveste medo de quê?

E agora que te vejo outra vez o sorriso nos olhos de aço. Não te quero ver rejeitado de novo. Tem cuidado. Não sonhes tanto. Porque quanto mais sonhas. Mais difícil te será acordar sozinho outra vez.

Amice desinas ineptire.
Ρ.Α.

18.6.07

Epistolário XXII

[Pieter Bruegel o Velho - Brincadeiras de crianças (pormenor)]

I am the passenger

and I ride and I ride

I ride through the city's backside

I see the stars come out of the sky

yeah they're bright in a hollow sky

you know it looks so good tonight

(cantado por Iggy Pop)
André ao seu Ρ.Α.

Tive medo sim. Eu tive medo de ti. Tive medo de mim. Porque sim eu estendia a mão e logo a recolhia. Com medo. E eu só queria abraçar-te. Sabes. Apertar-te nos meus braços e dizer-te gosto de ti. Sim eu sei. Abracei-te muitas vezes. Mas nunca te disse gosto de ti. Não era preciso.

E agora não sei se abrace se diga se faça. Porque eu gosto. Muito. E eu queria abraçá-lo e dizer gosto de ti. Passar-lhe a mão pelo cabelo pela cara e dizer gosto de ti. Mas sigo. Amando olhando não tocando. Com medo. Sempre com medo. Não tenho emenda. Não tenho mesmo emenda.

Eu lembro-me. Eu sei que tu me sentiste. E eu senti-te. E suei. E fiquei tão vermelho. Mas não me mexi. Nem tu. Ficámos. E mais nada. Estou a ficar vermelho. Não falemos mais disto. Há tanta gente a ver. E há coisas que. Tu sabes.

Adoro-te
André

P.S.: الحب أعمى

17.6.07

Epistolário XXI

[Dürer - Cavaleiro]

tú gitana que adevinhas
me lo digas pues no lo sé
si saldré desta aventura
o si nela moriré

o si nela perco la vida
o si nela triunfaré
tú gitana que adevinhas
me lo digas pues no lo sé

(anónimo renascentista
cantado por Zeca Afonso e Luar na Lubre)

Ρ.Α. ao seu André

Não tens emenda. Olhas. Amas. E não tocas. Tiveste medo de mim. Não digas que não. Porque eu li-to nos olhos. E nas mãos. Que se erguiam para me tocarem. E depois desciam medrosas. Medo de quê. Consomes-te. Se me tivesses tocado. Mas não. Tu tocaste-me. Lembras-te. Eu senti-te. Sim sim. Não fiques já tão vermelho. Não vou contar. Tu sabes que eu te senti. E eu não te afastei. Podia ter-te empurrado. Questamerda. Ainda assim. Olhavas amavas. E não tocavas. Mesmo quando. Lembras-te. Quando me beijaram. E tu viste como eu reagi. Ou não. Não viste. Porque eu não reagi. Tão novos. Aqueles lábios nunca eu tinha provado. Tu lembras-te do outro. Que era igual só que. Esquece. Não fica bem aqui. Desculpa. É que isto é difícil. Porque eu nunca. E de repente. Mas sabes. Não. Esquece. Depois perguntei-te. Vistemogajo. E depois perguntei-te coisas sobre ele. E o ciúme nos teus olhos. Não. Não era ciúme. Raiva. De ti mesmo. Dos teus medos. Das tuas inseguranças. Porque ele foi capaz e tu não. E eu não lhe disse questamerda nem o empurrei. Em vez disso quis saber coisas sobre ele. Eu não o conhecia bem. A ti sim. Tão bem. Tu sabes que eu gostava muito de ti. Nunca saberás se. Porque nunca to disse. E não é agora que to vou dizer. Diante desta gente toda.

Eu lembro-me do teu beijo na minha cara. Não era a mesma coisa. O do outro era um beijo sensual. No teu havia tanto carinho. Eu sei. Eu sabia. Mas no teu beijo não havia desejo. E por isso ri. Olhei-te e ri. E tu ficaste vermelho. Gaguejaste. Sabes que gaguejas quando estás nervoso. E as pessoas ficam a olhar para ti comiseradas. Coitadinho é tonto. Mas eu sabia que tu não eras tonto. Tonto sim de amor. Isso eu sabia. Mas eu não podia. E aquele teu beijo. Na cara. Não era um beijo de amor. Respeitavas-me tanto. Demasiado. Pedias-me desculpa quando achavas que invadias a minha intimidade. E eu ria. Tonto. És tão tonto. O teu beijo. Beijo de irmão.

Se eu fosse alguma coisa se eu fosse alguém também teria tantas saudades tuas também te quereria tanto. Mas eu sou nada. Eu não sou. Sou imagem na tua memória. Sou memória.

Beso amigo
Ρ.Α.

15.6.07

Epistolário XX

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor do painel esquerdo)]

breathe life into this feeble heart
lift this mortal veil of fear

take these crumbled hopes, etched with tears
we'll rise above these earthly cares

Loreena McKennitt


André ao seu querido Ρ.Α.

Eu respondo-te todos os minutos todos os momentos. Mesmo quando não respondo. Porque tu não deixas o meu pensamento. E a tua memória vive na minha. Por isso não te zangues. Embala-me sim nos teus braços de nada enquanto de novo me enredo em doce paixão. Platónica. Outra vez.

Eu não tenho medo. Não me digas que tenho medo. Porque olhar amar não tocar. Não não. Não tenho medo. Eu quero tocar. Mas tu sabes. Se eu toco e me diz pára. Se eu toco e não me toca. Porque me é mais fácil não tocar. Porque se não tocar. É que se não tocar não sou rejeitado. E se não for rejeitado não sofro. Percebes. Não. Tu não percebes. Porque se não me quer. Excrucior. Tenho medo. Tenho medo outra vez. Tanto medo.

E não passo disto. Olhar amar não tocar. Um dia toquei-te. Lembras-te. E tu riste. E eu fiquei tão vermelho. Tinha bebido. E depois cruzámo-nos na pista de dança. Eu tinha ido buscar mais um copo. Abracei-te com tanta força. E dei-te um beijo na cara. Naquele momento a minha vida parou. Porque era tudo o que eu queria. Ter-te nos meus braços. Não era o beijo. Não era o calor do teu corpo apertado contra o meu. Porque eu não sou corpo. Tu sabes. Eu não sou carne.

Ter-te nos meus braços. O teu ser no meu. A minha vida parou naqueles momentos em que te senti tan cerca tan cerquita de mi. Y no me lo pude evitar. Porque te. Y entonces te miré en los ojos y te pregunté si te enfadaras. Que no pasaba nada me dijiste. Pero sí. Había pasado algo. A mi se me había pasado algo.

E agora não sei. Já não sei nada. Sabes. Há dias assim. Tão belos. Que não queremos acabem nunca.

Te quiero tanto te echo tanto de menos.
André

Epistolário XIX

[Dürer - Porto de Antuérpia]

En esta casa hay algunas biblias inglesas, incluso la primera, la de John Wiclif. Tengo asimismo la de Cipriano Valera, la de Lutero, que literariamente es la peor, y un ejemplar latino de la Vulgata. Como usted ve, no son precisamente biblias lo que me falta.
Jorge Luis Borges, El libro de arena

Ρ.Α. ao seu André

Não me respondeste à minha última carta. Não. Eu sei. Respondeste. Afinal foste tu que a escreveste. Mas deixa-me repreender-te ainda assim. Deixa-me dizer-te que sinto a tua falta. Escrever e não ter resposta. Mas eu sei. Eu sei. E não sei se. Porque tu. Os teus olhos. Tanta luz. Não cegues. Não sabes se.

Amens amansque. Em português não funciona. Outra vez te vejo os olhos dançantes. Outra vez te vejo conformado. Olhar amar. Não tocar. Porquê. Tens medo de quê. Eu sei. Não respondas. Eu sei. Já nos conhecemos há tanto tempo. Mesmo antes de nos conhecermos. E eu sei. Não fujas. Não fujas outra vez. Não tenhas medo.

Ρ.Α.

11.6.07

Epistolário XVIII

[Baglione - São Sebastião assistido por um anjo]

«E quando chegarom aa Seda Perigosa, acharom i leteras novamente fectas, que diziam: 'A CCCCLIII anos compridos de morte de Jhesu Cristo, em dia de Pinticoste, deve haver esta seeda senhor'. Par Deus, disse Lançalot, quando esta maravilha ouvio: pois hoje deve haver senhor, ca da morte de Jhesu Cristo a este Pinticoste há CCCCLIII anos. E bem querria se podesse que estas leteras nom visse niũũ atee que veesse aquele que a há d'acabar.»
A Demanda do Graal, 8
(tradução portuguesa do século XIII)


Ρ.Α. ao seu André

Assim sim. Sim. Sinto-te tão tão. Outra vez. Como as coisas são tão. Tão mais. Quando te dizia que não te agarrasses a mim morto. Agora não precisas. .أحبه ويحبك إنشاء الله Gosto tanto de te ver assim. O mundo não acabou. Vês. Assim. De repente. Preso naqueles olhos. Ai ai. E eu escrevo e leio e sinto. E é como se fosse eu. Porque eu sou eu. Porque eu sou tu. E quando. Não não. Deixa correr. Porque mesmo que não. Mesmo que. Assim estás tão bem. Assim eu.

Tão bom tão estranho. Et Salmanticae tu. Iterum. Estava lá o Tormes. E a Fonda Lisboa. Lembras-te. Eu não. Porque eu não estava lá contigo. Mas eu sei. O clac clac abafado das cegonhas cortando o calor da tarde. O corpo molhado debaixo do duche tão fresco. E a noite quente quente. Um dia voltarás a contar isto tudo. Eu não me lembro. Mas sei. Tão miúdo. Vinte e um anos curso acabado. Cabelo comprido tantos brincos. Óculos redondos pequeninos. Calças rotas botas militares. Bebendo sangria tanta tanta fumando cigarros. Havia o Edward e o amigo e a holandesa avantajada. Parvo. Dá Deus nozes a quem não tem dentes. Os outros holandeses. Quantos eram. Não te lembras. Eu também não.

E agora. Tantos anos depois. Tão diferente. Tu. Porque o Tormes ainda lá está. Igual. Mas tu. Cabelo curto com cãs. Os brincos sim. Mas menos. E a roupa roupinha tão bonita bonitinha. Não há holandesas avantajadas nem ingleses de olhar penetrante. Há respeitáveis académicos espanhóis e portugueses. E tu académico. Quem te diria. Quem te via. Quem te sente. Tão calmo sempre tão calmo.

Sinto que não me queres ler. Ouvir. Porque tens a tua cabeça noutro lugar. E eu gosto de te ver assim. De te sentir. Porque quando te sentes. Eu também te sinto. Me sinto. Deixo-te mergulhado nos olhos cerúleos que te aprisionaram. Não te afogues.

Adoro-te.

6.6.07

Epistolário XVII

[Hunter - Backlighted beech tree]

«When he dialed his home number and Rüya picked up right away, he was shocked. 'You're awake already?' He was happy to hear that Rüya was no longer wandering through the garden of her memories and was back in the real world with everyone else.»

Orhan Pamuk, The Black Book
(original: Kara Kitap.

Tradução de Maureen Freely)


Ρ.Α. ao seu André.

Recebi a tua carta. Não não. Não vou comentá-la. Tu pediste que a deixasse secreta. Não estava à espera. É que te via tão. E agora. Strong as a ship and wise as a whale. Deixas-me feliz. Como dantes. Lembras-te. Para que foste tu. Não posso deixar de me surpreender. A tua força é impressionante. Não não. Não me refiro aos trinta e dois quilos. Quando passas aos trinta e seis. Amanhã. Tem calma. Trinta e dois ontem. Trinta e dois hoje. Tem calma. Mas não falava dessa força. Da outra. Daquela que te enche agora de tranquilidade. Vejo-te de novo tão sereno صديق tão. Não sei. Esses olhos de aço.

E agora. Há quem te diga inconstante. Ainda que não sejas tu quem lança ardentes juras apaixonadas pela terceira vez em mês e meio. Oh dear... Onde é que li isto. Já sei. McEwan. Mas não. Prometemos não falar mais disso. Encerrado. Para ti está para mim está. Tu és constante. Sabes o que queres. Sempre soubeste. E o que não queres. Mesmo se às vezes te deixas cegar. Mas também Saulo cegou. E depois voltou a ver.

E agora. Agora estás de pectus livre. Bom. Livre livre não. Eu estou lá. Mas eu. Nada. Morto. Tu sabes. E aquela estação de comboio. Há quê. Dezasseis anos. Não sei. Não me lembro. Ainda lá está. Nunca de lá saiu. Não não. Não estás de pectus livre. Limpaste-o. Mas não o vazaste. Não queres. Não deixas. Porque el alma prende fuego cuando deja de amar. E agora.

Adoro-te.

2.6.07

Epistolário XVI



«I sat on the lavatory a long time and decided then not to move till I had planned what to do next. I remained there over two hours, staring at my knees till they lost their meaning as limbs. I thought of cutting my fingernails, that would be a start. But I had no scissors! I commenced to prowl from room to room once more, and then, torwards the middle of the evening, I fell asleep in an armchair, exhausted with myself.»
Ian McEwan, Psychopolis

Ρ.Α. ao seu André.

Quid plura. Já percebeste tudo. Não é preciso falarmos mais disto. Já sabias. Já te tinha dito. Só histórias. It's not you, it's me. Bullshit. Porque é que as pessoas inventam. Tu não inventaste quando. E doeu. Tu sabes. Não não a verdade não dói mais. Quem o disse nunca foi ferido pela mentira. Mas olha o lado bom. Tu olhas sempre o lado bom. Agora já sabes. Não há razão para mais sofrimento. Porque agora já sabes. Não te merecia. Não és tu quem fica a perder. E não voltemos a falar disto. Morreu. Status indifferens. Quid plura.

Pega na vida. Pega em ti. Já te vejo queixo erguido costas direitas. Olhos abertos. Não olhes para baixo. Não olhes para trás. Não te agarres a mim. Eu morri. Não te posso dar. Tu sabes. Digo-to a cada carta enviada. Mas tu não me ouves. E continuas deitado na minha sepultura. E não percebes que foges do mundo. Que também tu escolhes o mais confortável. Andas a perder tanto tanto. Enquanto te agarras a mim morto há uma vida que te passa ao lado. E vais passando tu ao lado de tanta gente que te merece. Quid plura.

Eu estava lá na tua memória. Eu senti. Eu senti-te. Tu sentiste.

Adoro-te.

31.5.07

Epistolário XV

[Cecco del Caravaggio - Mulher com pomba]

«Is it true? I lie in the dark... it is true, I think it is over. She sleeps, there was no end, the suspension came unnoticed like sleep itself. Yes, the ancient to and fro rocked her sleep, and in sleep she drew me to her side and placed her leg over mine. The dark grows blue and grey and I feel on my temple, beneath her breast, the ancient tread of her heart to and fro.»

Ian McEwan, To and Fro


André ao seu querido Ρ.Α.
Queria saber o que é ser nada. Não não não ralhes comigo. Porque ser nada é tão melhor do que ser isto. Tu sabes. É que ser isto. Ver os dias caindo uns sobre os outros. Iguais. Chumbados. Noites pegajosas lambem-me com línguas de sal as feridas do corpo partido. Et excrucior. As horas choradas à espera do fim. Eu quero saber o que é ser nada. Porque eu sei nada. Senão os dias de chumbo rebolando sobre as noites de visco. Et excruciabor. Não sei o ser corpo frio descarnado em caixa escura. Mas sei o ver corpo frio amado sem vida. Sei o ouvir a terra cair pesada sobre corpo frio amado sem vida. Não sei a dor horrenda que te arranca as entranhas e te mata devagar devagarinho com data marcada. Mas sei a dor medonha que me devora a alma e ma mata devagar tão devagarinho. Não ralhes não por favor. Porque eu sei. A tua dor não tem igual na minha. Porque a tua rasgou-te e sangrou-te e comeu-te a carne e matou-te. E a minha não rasga nem sangra nem come nem mata. Porque a minha está na alma não está no corpo. Tu sabes. Mas tenho esta outra dor que tu não sabes. O ver-te estendido quase invisível branco sem vida. E nem esta mata nem come nem sangra nem rasga. Mas dói dói tanto e nunca mais pára nunca mais morre. Assombra-me as noites e os dias e os sonhos. E eu sei que não me deixa a alma enquanto tem corpo que a alimente. Por isso, amigo, às vezes gostava de ser nada. Porque ser isto.

Eras Sol forte quente que me ardia o corpo. Não Lua statu uariabilis que vai minguando com o passar dos. E um dia será Lua Nova. Sabes. Invisível. Está lá mas a gente não a vê envolta em sombra. Como se ali não estivesse. Agora vai minguando minguando já quase não se vê. Porque quer. Podia ser astro quente tão quente como os. Mas enrola-se conformado derrotado no seu leuis status uariabilis. Porque eu sei. Um dia breve breve ser-me-á status indifferens. Et exultabit anima mea. Até lá vou virando lento as costas e olhando para o horizonte de onde nascerás tu Sol forte quente. Statu stabilis. Não sei para quem escrevo. Não sei quem és tu. Não sei quem espero. Porque tu não voltas a nascer. E tu morreste.

Vale

30.5.07

Epistolário XIV

[Bosch - São Jerónimo orando (pormenor)]

my precious love can only come from above

in unity is born a kiss of dignity
(cantado por Lisa Gerrard)

Ρ.Α. ao seu André

Não fales de cinzas tu que não sabes o que é ser pó. Não fales de frascos negros de ferro. Tu não sabes o que é caixa negra comprida fechada. E o peso da terra que não me foi leve. E a carne seca colada aos ossos. E os olhos vazios e a boca partida. E agora nem dois nem um nenhum. Por isso não fales. Não fales. Cala-te. É que tu não sabes o que é ser nada.

Não te agarres a mim morto. Não te deites lançado na minha sepultura. Não te amarres à minha memória. Porque eu. Tu sabes. Eu não te traí. Não te menti. Não te enganei. Não neguei hoje o que afirmei ontem e não afirmei hoje o que neguei ontem. Nunca te magoei. Eu estou morto. E os mortos não traem nem mentem nem enganam nem magoam. Nem contradizem. Os mortos são confortáveis. Mas não te agarres a mim confortável. Porque eu não te posso dar nada. Porque eu sou nada.

Que queres dizer com passares pelo fogo. Não digas. Cala-te. Porque tu não sabes o que dizes. Dimittite illi: non enim scit quid dicit. Qual fogo. Tu não sabes o que é o fogo da dor que nos arde queima por dentro. Tu não sabes nada. Porque saber latim e grego e árabe não te dá o direito de saberes o que é o fogo IGNIS ΠΥΡ نار não te dá o direito de saberes nada. Por isso não fales de fogo e de cinzas. Que de fogo e de cinzas e de pó sei eu. E tu não sabes nada.

Se te parece que te ralho. Se te ralho é porque te adoro. Se não não te ralhava. Se não te ralhasse eras-me indiferente. Se me fosses indiferente não te morava a alma dia e noite. Se te parece que te ralho. Se te ralho. Tu sabes.

Quem te viu gordo fraco indolente. E agora levantas trinta e dois quilos. E repetidamente. Não te iludas. Não é nada de extraordinário. Eu se calhar levantava mais do que isso. Mas é tão bom ver-te tão diferente. Já não és gordo. Pela primeira vez na tua vida não és gordo. Nem há dez anos. Quando te lancei o braço e te levantei. E quando foste à inspecção e acharam que fingias fraqueza que não tinhas. Lembras-te. Que vergonha. E tu preferiste sorrir e admitir o que não era verdade. Agora vejo-te tão diferente. Já não te poderia chamar gordo. Nem preguiçoso. Já não te acordaria. Waky waky rise and shine. Because you shine by yourself. Shine up. I know you'll be strong as a ship and wise as a whale. Lhasa. Sempre Lhasa.

Adoro-te. Ainda que aqui seja o nada.