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18.4.13

"Tudo visto e pesado, prós e contras, vem vem já. Estou farto de viver sem ti, espero apenas que me digas o dia, e que seja o mais próximo possível. Espero-te com todo o amor do mundo."

António Lobo Antunes, D'este viver aqui neste papel descripto

12.6.08

Cérelac

[Bosch - O caminhante (pormenor)]

«Não é em si que não acredito, é em mim, na minha repugnância em me dar, no meu pânico de que me queiram, na minha inexplicável necessidade de destruir os fugazes instantes agradáveis do quotidiano, triturando-os de acidez e ironia até os transformar no Cerelac da chata amargura habitual.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas

4.6.08

A noite

[Goya - Fogo nocturno]
«Cada vez mais fui prolongando as madrugadas e encurtando os dias, na esperança de que uma noite perpétua me lançasse um púdico véu de sombra nas bochechas esverdeadas: esta cidade absurda, onde os azulejos multiplicam e devolvem a mínima parcela de claridade num jogo de espelhos sem fim, e onde os objectos vogam suspensos na luz como nos quadros de Matisse, obrigava-me a tropeçar de quarto em quarto à maneira de uma borboleta entontecida, passando uma palma mole pela lixa repelente da barba.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas

12.5.08

Agonia

[El Greco - Agonia no Horto (pormenor)]
«Como quando se tosse nas garagens à noite, pensei, e se sente o peso insuportável da própria solidão, nas orelhas, sob a forma de estampidos reboantes, idênticos ao pulsar das têmporas no tambor do travesseiro.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas

6.5.08

Maré

[Blake - Hécate]
«Não apague a luz: quando você sair a casa aumentará inevitavelmente de tamanho, transformando-se numa espécie de piscina sem água em que os sons se ampliam e ecoam, agressivos, retesos, enormes, batendo-me violentamente contra o corpo como as marés do equinócio na muralha da praia, rolando sobre mim espumas foscas de sílabas.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas

1.5.08

O medo

[Caravaggio - Flagelação]

à memória do Rui

«O prédio que constroem à minha frente emparedar-me-á em breve à maneira das personagens de Poe e somente os meus dentes cintilarão nas trevas, como os dos esqueletos antigos acocorados num ângulo de caverna, a abraçarem os ossos dos joelhos com os tendões amarelecidos dos cotovelos.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas


Quando a morte te perseguia pegavas no carro e ias deitar a cabeça fora. Depois chegavas lento de olhos esmagados de um medo ferrugento oxidado. Tiravas o pé do pedal e despejavas devagarinho o olhar. E assim quando os teus olhos alfim se punham nos meus eram duas bolas macias e mortas e a morte lambia-me o peito e rosnava venci.

30.4.08

Afogado

[Van Gogh - Caminho com choupos]

«Queria pedir-lhe que não saísse daqui, me acompanhasse, ficasse comigo deitada aguardando não só a manhã mas a próxima noite, e a outra noite, e a noite seguinte, porque o isolamento e a solidão se me enrolam nas tripas, no estômago, nos braços, na garganta, me impedem de me mover e de falar, me tornam num vegetal agoniado incapaz de um grito ou de um gesto, à espera do sono que não chega. Fique comigo até que eu, finalmente, adormeça, me afaste de si numa dessas inexplicáveis reptações frouxas com que os afogados oscilam nas vazantes, me estenda de bruços, de boca na almofada, babando na barriga da fronha palavras indistintas, me afunde no poço pantanoso de uma espécie de morte, a ressonar o meu grosso coma de pastilhas e de álcool.»
António Lobo Antunes, Os cus de Judas

20.4.08

Iterum noctua

[Dürer - Coruja]

(uma coruja, dei com uma coruja entre as copas ou talvez nem uma coruja autêntica mas aquela que o meu terror inventou a partir de um novelo num ramo, pinhas, coagulações de sombra, o que imaginamos em criança no terror de

deixemos isso de parte, já falei tanto de mim, se houver ocasião falo horas e horas quando estiver em Espinho)

António Lobo Antunes, Exortação aos crocodilos

Os olhos cuspidos em cima de mim. Por um segundo hesitei.

Se era do frio da noite. Não é. É mesmo assim. Não te importas. Eu não. E tu. Eu. Se te parasse agora e te sentasse ao meu colo. Agora vou contar-te. Como se diz às crianças. Uma história a minha história. Dos meus medos e das minhas manias. Mas agora não pares. Amanhã.

Se do medo.

16.4.08

Epitaphius quintus

[El Greco - El soplón]

não era a idade que a assustava, era a morte, ficar sozinha à noite e esse vento horrível nos choupos, há cadáveres que desaparecem dos cemitérios sabe-se lá para onde

António Lobo Antunes, Exortação aos crocodilos

e se eu te dissesse os gritos que pastam na minha cabeça como as focas no fundo do mar. E a mão que me arranca as entranhas e os dedos e os olhos cuspidos. E a terra na boca e o lodo. Tu sabes. Os dias e as noites. E o peso da terra pesando sobre os meus ossos. Devagargarinho.

Eu disse-te que me queimasses. E tu abriste um buraco em terra que não me tem sido leve.

12.2.08

Nos lençóis

[A partir de um azulejo do século XVIII. Convento da Graça, Torres Vedras]

acordo com ele nos meus sonhos, encontro-o na almofada, nos lençóis, nas árvores do lago
António Lobo Antunes, Exortação aos crocodilos