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28.8.08

[Piotr Sokolov - Tchítchikov e Koróbotchka]

«- A sério, paizinho, nunca na vida me calhou ainda vender mortos. Vivos, isso sim, já tenho cedido alguns; ainda há dois anos vendi ao arcipreste duas raparigas, por cem rublos cada uma, e ele agradeceu-me muito, são boas trabalhadeiras, tecem-lhe as toalhas.
- Olhe, não se trata de vivos, os vivos que vivam com Deus. Estou a pedir-lhe mortos.
- A sério, como é a primeira vez, tenho medo de ser prejudicada. Tu, paizinho, às tantas estás a enganar-me, e o preço deles... de qualquer maneira... é superior.
- Oiça, mãezinha... irra, como a senhora é! O que podem eles valer? São simplesmente pó. Pegue numa coisa qualquer, um simples farrapo, e o farrapo tem o seu preço: ainda pode ao menos ser comprado por uma fábrica de papel, mas aquilo é perfeitamente inútil. Diga-me lá a senhora, que utilidade pode ter aquilo?
- É verdade, é mesmo isso. Não têm utilidade nenhuma, a minha dúvida, precisamente, é estarem mortos.»
Nikolai Gógol, Almas Mortas
Trad. Nina Guerra e Filipe Guerra
Assírio e Alvim, 2002

20.10.07

Agrafena Ivánovna


[Chagall - Homenagem a Gógol]

«O general tirou o cachimbo da boca e, com ar de grande satisfação, pôs-se a olhar para Agrafena Ivánovna. O próprio coronel desceu as escadas e abraçou Agrafena Ivánovna pelo focinho. O próprio major deu palmadinhas na perna de Agrafena Ivánovna; os outros estalaram as línguas.»
Nikolai Gógol, A Caleche
trad. de Nina Guerra e Filipe Guerra

28.4.07

Releituras - Gógol


[Jerzy Czerniawski - Diário de um louco]

«Dia 25

Hoje, o inquisidor-mor entrou no meu quarto, mas eu, como tivesse ouvido ainda ao longe os passos dele, escondi-me debaixo da cadeira. Como não me via, começou a chamar por mim. Primeiro gritou: "Popríchin!" - mas eu, nem pio. Depois: "Aksénti Ivánovitch! Conselheiro titular! Fidalgo!" E eu, moita. "Fernando VIII, rei de Espanha!" Já me preparava para assomar a cabeça, mas pensei: "Não, amigo, não me aldrabas! Bem sabemos como tu és: vais outra vez derramar-me água fria na cabeça." Acabou por me encontrar e expulsou-me à paulada de debaixo da cadeira. Dói muito quando o maldito pau nos atinge. Contudo, fui recompensado por uma descoberta minha, feita hoje: fiquei a saber que qualquer galo tem uma Espanha debaixo das penas. Entretanto, o inquisidor-mor saiu furiosíssimo, ameaçando-me com um castigo qualquer. Eu, porém, dei ao desprezo a sua raiva impotente, sabendo que ele agia como uma máquina, como uma ferramenta dos ingleses.»

Nikolai Gógol, Diário de um Louco, Assírio e Alvim

Число 25

Сегодня великий инквизитор пришел в мою комнату, но я, услышавши еще издали шаги его, спрятался под стул. Он, увидевши, что нет меня, начал звать. Сначала закричал: "Поприщин!" - я ни слова. Потом: "Аксентий Иванов! титулярный советник! дворянин!" Я все молчу. "Фердинанд VIII, король испанский!" Я хотел было высунуть голову, но после подумал: "Нет, брат, не надуешь! знаем мы тебя: опять будешь лить холодную воду мне на голову". Однако же он увидел меня и выгнал палкою из-под стула. Чрезвычайно больно бьется проклятая палка. Впрочем, за все это вознаградило меня нынешнее открытие: я узнал, что у всякого петуха есть Испания, что она у него находится под перьями. Великий инквизитор, однако же, ушел от меня разгневанный и грозя мне каким-то наказанием. Но я совершенно пренебрег его бессильною злобою, зная, что он действует, как машина, как орудие англичанина.

Николай В. Гоголь, Записки сумасшедшего