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14.8.07

Aquilo que não se pode contar . 19 . E se

[Bosch - Julgamento Final (fragmento do Inferno)]
κύριε ἐλέησόν με
kýrie eléêson me
Salmos (versão da Septuaginta) 40:5

E eu sei o que é isto que se me enterra no peito e me arranca a força e me mata e me morre a coragem de. Eu vejo eu sinto eu sei. E são cinco da manhã e eu espero a luz. Deito os olhos pela porta. Calor tremendo. Espinha acima. E se.

Aquilo que não se pode contar . 18 . Aquilo

[Bosch - Jardim das delícias terrenas (pormenor do painel direito)]

γῆ εἶ καὶ εἰς γῆν ἀπελεύσῃ
terra és e à terra voltarás
gê eî kaì eis gên apeléusêi
Génesis (versão da Septuaginta) 3:19

Um sótão esquecido tem frestas nas telhas por onde entram línguas de luz de cobre que fazem dançar a poeira. E o chão range se lhe pomos um pé em cima e depois o outro. E há cómodas velhas e arcas onde ninguém toca ou se calhar nunca ninguém tocou. E teias de aranha grandes do tamanho de um homem: cortinas cinzentas de pó enfeitadas aqui e ali por cachos de moscas mortas secas sugadas comidas por dentro. E há bolor e musgo e umbrófilas porque quando chove a água escorre pelas telhas rachadas. E um cheiro espesso que se entranha na pele. E a madeira estala e ronca gemendo as entranhas roídas.

Mas aquilo não era um sótão esquecido. Fechei os olhos e esperei. Eu sabia que tinha de esperar. O quê. Não sabia. Agora sei. Agora.

Talvez não tenha sido mais do que um momento. Percebi a claridade invadir-me as pálpebras. Abri os olhos e afinal não havia claridade. Uma penumbra de cobre. Assim como a luz moribunda que passa a minha cortina listada. Laranja. E vermelha. E já não estava tudo turvo. Olhos habituados àquela penumbra. Não havia frestas nas telhas. Nem línguas de luz nem cómodas nem arcas intactas. Nem teias nem aranhas. Nem bolor nem musgo. Nem moscas secas sugadas. Vazio. Só pó. E o pó não assentava.

Olhei para todos os lados. Um sótão imenso e o pó. Alto no meio. Tanto que não chegava às telhas mais altas. Mas eu era tão pequenino. E depois descia dos lados. Até tocar no chão de madeira lisa. Limpa. Sem pó. Agora notava. Tanto pó no ar. Mas no chão. Como a moldura vista de baixo. Madeira lisa limpa polida. Como se alguém. Ou alguma coisa. O pó dançava eterno no ar. Sem pousar.

E depois ouvi o toc toc. Ao fundo. Mas como. Se o ouvia todos os dias mesmo em cima de mim. E agora estava no ponto oposto. Mesmo lá ao fundo. Onde a luz morta já pouco alcançava. Um calor tremendo espinha acima. Mas medo não. Como se. Não. Lancei os olhos ao fundo do sótão. De onde toc toc. E depois vi.

Aquilo.

28.7.07

Hic sunt leones . 3 . O medo

[Albrecht Pfister - Daniel na cova dos leões]

ἦσαν δὲ ἐν τῷ λάκκῳ ἑπτὰ λέοντες καὶ ἐδίδετο αὐτοῖς τὴν ἡμέραν δύο σώματα καὶ δύο πρόβατα τότε δὲ οὐκ ἐδόθη αὐτοῖς ἵνα καταφάγωσιν τὸν Δανιηλ
Daniel 14:32

Não houve tempo para ter medo. Não custou nada. Só aquela dor aguda. Mas quê. Nem um segundo. Nem me lembro. Era mesmo aguda ou será que. Se eu soubesse que era assim não teria tido tanto medo de ter medo. Porque não era a morte que me assustava. Era o medo. O medo que eu achava me ia devorar quando percebesse a morte sobre mim. E afinal. Se eu soubesse que era assim já teria morrido há mais tempo. Foi muito fácil. Muito rápido. Quase indolor. Vou contar como foi. Foi assim. Quando percebi que o leão ia. Não tinha nada a perder. Vi-o ali tão perto. A goela escancarada e o cheiro a carne podre. Então voltei-lhe as costas e corri. Ou tentei correr. Porque ele caiu sobre mim. Não terei dado mais do que um passo. Pescoço partido clac. Talvez devesse ter ficado parado. Não sei. Morreria na mesma. E talvez sofresse mais. Porque de costas. Mas eu já conto. Agora quero lembrar-me de outra coisa. Não foi a primeira vez que uma besta me caiu em cima. Houve aquela vez. Não me lembro bem. Era tão pequenino. Um cão negro. Era nosso e era enorme. Ou talvez não fosse assim tão enorme. Talvez fosse apenas um cão grande. Normal. Tinha um nome estranho. Não me lembro. Foi há tantos anos. Trinta. Ou mais. Eu sei que estava no quintal. E ele veio a correr. Como este leão que agora se diverte a tirar para fora da minha barriga todas as minhas entranhas. Deixá-lo. Se me matou. Tem direito. E eu prefiro assim. Fico despachado. Porque me esqueci de deixar escrito que queria ser cremado. Livra. Ainda alguém se lembrava de me enterrar. E eu não quero o meu corpo a apodrecer dentro de uma caixa enterrada. Assim não restará nada senão osso. E os ossos podem-mos enterrar à vontade. Se calhar chamei-o. Não me lembro. Lançou-se sobre mim e deitou-me ao chão. Eu chorei muito. Não morri. Não me comeu. Mas fiquei gago. O que é quase a mesma coisa. Depois passou. Não sei como. Um dia deixei de gaguejar. Quer dizer. Não sei se foi um dia. Ou se foi. Foi há tantos anos. Trinta. Ou mais. O que importa é que deixei de gaguejar. Quase. Porque às vezes ainda gaguejo. Quando estou distraído. Já contei isto. Como se a minha capacidade de falar sem gaguejar fosse obra de esforço consciente. E depois quando me distraio gaguejo. Ou quando me apanham de surpresa. Por isso falo devagar em situações de grande pressão. Pronunciando com clareza todas as sílabas. Dizem-me que a minha voz tem efeito calmante. É possível. Porque penso todas as palavras antes de as dizer. Para não gaguejar. Isso isso. O meu fígado. O que me preocupa é que é como se eu estivesse aqui. Sabem. Como se estivesse vivo. Mas sem sentir. Nem vejo o meu corpo de cima como por vezes se diz. Nem túnel de luz. Nem. Nada. Estou aqui. Como vivo. Mas morto. Porque ele já me comeu o coração. E no entanto. Foi uma patada. Acho. Deu-me uma patada no pescoço. Por isso foi tão rápido. Só aquela dorzinha. Assim. Ping. Como uma agulha espetada e logo tirada. Depois estava morto. Ainda bem. Quer dizer. Ainda bem que foi um pescoço partido. Se não me tivesse virado para fugir. Imaginem que me matava como fazem os leões na savana às zebras. Que horror. Assim foi rápido e limpo e quase indolor. Mas mesmo que tivesse doído muito. A dor só é dor quando nos lembramos dela. E eu ia morrer. Acabava ali mesmo a dor. Aquela e todas. Finito. Kaput. Depois andou a cheirar-me e voltou-me de barriga para cima. Rasgou-me a camisola com as unhas e lambeu-me a barriga durante algum tempo. Não vou contar como ma abriu e como me foi devorando as tripas. É quase erótico. O leão que me lambe e me abre e me come. E agora dorme com as patas fortes sobre mim. Sobre o que resta de mim. Ossos avermelhados. E esta cabeça que teve uma cara tão bonita. Mas sabem o que me começa a assustar. É que não me sinto morto. Porque continuo aqui. Agarrado ao que resta do meu corpo. Pensando. E vendo. Como se estivesse vivo. Mas sem sentir. E agora tenho medo. Não da morte. Porque morto já eu estou. Mas de não morrer mesmo. Porque se eu morresse mesmo era como adormecer e não acordar. Só sabemos que dormimos quando acordamos e nos lembramos de ter dormido. E agora é isso que me está a acontecer. Morri e lembro-me de ter morrido. E se me lembro de ter morrido é porque não morri. E no entanto já não sou mais do que um monte de ossos e alguma carne para o pequeno-almoço deste belo leão. Quero morrer mesmo. Deixar de ver de pensar. Largar o corpo. Porque isto. Mais valia viver. Porque vivendo eu sabia que ia morrer um dia. E agora estou morte e não sei o que me vai acontecer. Se me vai acontecer.

3.5.07

Et non inueni

[Richard Parker Bonington - No Adriático]


in lectulo meo per noctes

quaesiui quem diligit anima mea
quaesiui illum et non inueni
Cant. 3, 1

O teu cheiro banha-me o quarto. Doce. Não sei se nos lençóis. Que já não são os mesmos. Se no ar morno que me envolve na noite. Há bocados de nós lançados por toda a parte. Recordações mornas. O calor do teu corpo ainda me embala sereno o sono. Estendo esquecido tantas vezes os braços à procura de ti. Para te envolver de novo em abraço sem fim. Mas lembro-me. E acordo e cobre-se-me o coração de dor. E choro de novo na almofada cansada de mim.